Como Brasil e Vietnã tomaram fatias ainda maiores no mercado global de café

28/08/2019

O cafeicultor Julio Rinco conduz sua máquina colhedora de café na lavoura da família em São João da Boa Vista (SP), cuidando para que o equipamento encubra da melhor maneira possível, um após outro, os pés na longa fileira.

A máquina, uma inovação que se espalhou rapidamente pelas fazendas de café no Brasil, é uma das inovações que ajudaram a cortar os custos de produção na fazenda da família Rinco a níveis que poucos em outras partes do mundo que ainda usam mão-de-obra intensiva conseguem igualar.

Com crescente uso de mecanização e de outras tecnologias, os dois maiores produtores mundiais de café, Brasil e Vietnã, estão elevando seus níveis de produtividade e deixando para trás rivais como Colômbia e outros países na América Central e na África.

E eles estão preparados para elevar esse domínio.

A queda recente dos preços referenciais do café no mercado internacional para o menor valor em 13 anos deverá provocar mudanças substanciais no setor, onde apenas os produtores mais eficientes deverão permanecer, segundo negociadores de café e analistas.

Produtores rivais dos brasileiros e vietnamitas deverão ser gradualmente empurrados para uma área marginal no mercado, impossibilitados de fazer dinheiro a partir da cultura do café que eles têm tocado por gerações. Alguns já estão mudando para culturas alternativas, enquanto outros estão abandonando completamente a atividade.

Esses tipos de tendências podem ser quase irreversíveis tratando-se de culturas perenes como o café, já que decisões como abandonar ou erradicar lavouras podem afetar a produção por vários anos.

“Brasil e Vietnã têm obtido aumentos consistentes em produtividade, que outros países não obtiveram”, afirmou Jeffrey Sachs, diretor do Centro para Desenvolvimento Sustentável na Universidade de Columbia, que recentemente coordenou um estudo sobre a situação do setor produtivo de café no mundo.

Além de mecanização, ele cita avanços no desenvolvimento de novas cultivares e na ampliação da irrigação tanto no Brasil como no Vietnã como fatores para os saltos em produtividade.

Na Colômbia e na América Central, o café é geralmente cultivado nas montanhas, onde a mecanização é mais difícil. Além disso, o sistema de colher as cerejas do café manualmente mantém os custos de produção relativamente elevados.

Já a produção na África é majoritariamente feita por pequenos agricultores que normalmente não possuem o capital necessário para adquirir novas tecnologias. Muitos deles sequer realizam o beneficiamento básico antes da venda, como a secagem ou o despolpamento.

MÁQUINAS
Rinco comprou sua colhedora de café por cerca de 600 mil reais e está pagando pelo equipamento com sacas de café, entregando cerca de 400 delas por ano durante quatro anos. A troca de produto por insumos é comum no setor agrícola brasileiro.

Uma máquina dessas substitui dezenas de pessoas na colheita. Mesmo com o custo da aquisição e do consumo de diesel, produtores e fabricantes das colhedoras estimam entre 40% e 60% a redução nos custos da colheita.

“Além do custo menor, ela fez com que a minha vida ficasse menos complicada”, diz Rinco, referendo-se à significativa redução da burocracia com contratação de mão-de-obra nos períodos de colheita, e à dificuldade em encontrar bons colhedores.

“As pessoas não querem mais colher café, elas estão indo pras cidades encontrar algo diferente pra fazer.”

Brasil e Vietnã agora produzem mais da metade do café no mundo. Há 20 anos, produziam apenas cerca de 30% do volume global. E a proporção continua crescendo, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

O Brasil, maior produtor mundial, responde sozinho por mais de um terço da oferta global. Em um sinal de ganhos de eficiência, o país colheu uma safra recorde de quase 62 milhões de sacas no ano passado e analistas estimam que produzirá um novo recorde em 2020, ano de alta do ciclo bianual de produção do café arábica.

E isso ocorre apesar de a área de café no Brasil ter caído durante os últimos seis anos.

O Vietnã também tem registrado recordes de produção regularmente, enquanto a Colômbia, em contraste, colheu sua maior safra no início dos anos 1990, e a Guatemala o fez 20 anos atrás, mostram dados do USDA.

Em países como Guatemala e Honduras, cafeicultores que estão abandonando suas lavouras se juntam ao grande volume de pessoas tentando imigrar para os Estados Unidos.

SALTOS NOS RENDIMENTOS
A produtividade média no Brasil subiu bastante na última década. Números da FAO, agência de agricultura da ONU, mostram ganhos de 40% para 1,5 tonelada por hectare. No Vietnã, o ganho foi de 18% no período, para cerca de 2,5 toneladas por hectare (o país produz o tipo robusta, cujo rendimento é geralmente maior que do arábica).

A Colômbia registrou algum ganho, cerca de 12%, mas ainda está distante produzindo cerca de 1 tonelada por hectare, enquanto na América Central houve queda de 3% para apenas 0,6 tonelada.

Alexandre Gobbi, um executivo do setor de insumos agrícolas, juntou-se a dois parceiros para entrar no setor de produção de café no Brasil há quatro anos. Eles compraram uma área em São Sebastião do Paraíso, em Minas Gerais, e partiram para implantar um sistema de produção ideal.

A propriedade deles dispõe de equipamentos incluindo um sistema subterrâneo de irrigação, dotado de inteligência artificial, considerado o mais avançado do mundo.

“Ele faz quase tudo sozinho. Lê os níveis de umidade do ar, me diz quando eu devo irrigar ou quanto fertilizante eu preciso adicionar”, Gobbi disse à Reuters, enquanto mostrava indicadores em painéis digitais na sala de controle da fazenda.

Com o sistema, e outros equipamentos incluindo as colhedoras, ele dobrou a produtividade média para cerca de 60 sacas por hectare, e consegue obter rentabilidade mesmo com os baixos preços atuais.

VARIEDADE NO VIETNÃ
Um armazém de propriedade da exportadora vietnamita Simexco Dak Lak Ltd, na cidade de Di An, perto de Ho Chi Min, ilustra a escala da operação de café no país.

O café é colocado em pilhas de vários metros de altura, bem organizadas, aguardando o embarque para a Europa. O armazém tem capacidade para guardar até 20 mil toneladas durante o período de colheita.

“No pico da colheita, deixar algum espaço entre as pilhas, para as pessoas passarem, passa a ser um luxo”, diz Thai Anh Tuan, que gerencia um dos três armazéns operados pela Simexco, que exporta 80 mil toneladas de café robusta por ano.

“Qualquer espaço aqui será ocupado. E temos que contratar armazéns adicionais por perto”, afirmou.


Fonte: Safra ES